Barbacena finaliza processo de desinstitucionalização dos pacientes do CHPB

Compartilhe
Facebook
WhatsApp
Instagram

A desativação da unidade ocorreu nesta segunda-feira (25) com evento simbólico que colocou um cadeado na porta da instituição. Os 14 últimos moradores irão para uma residência terapêutica.

O Hospital Colônia de Barbacena teve as atividades definitivamente encerradas nesta segunda-feira (25) após a transferência dos 14 últimos moradores que ainda estavam internados na unidade.

O marco histórico contou com a presença do secretário de Estado de Saúde Fábio Baccheretti, do prefeito de Barbacena, Carlos Augusto Soares do Nascimento, da presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), Renata Dias, ex-pacientes, e várias autoridades da região e do Estado, além de convidados.  

O encerramento marca o fim das atividades de um dos locais mais associados a violações de direitos humanos no país.

✅ Clique aqui para seguir o canal do Vertentes das Gerais no WhatsApp

Os moradores — todos idosos, sendo o mais velho com 91 anos — foram levados para uma residência terapêutica em Barbacena, onde receberão acompanhamento especializado. Segundo o Governo de Minas, nenhum deles mantém contato com familiares, e a maioria apresenta quadro de saúde debilitado.

A transferência foi anunciada no fim de abril e iniciada na semana passada, marcando também o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio.

Para acolher os últimos 14 pacientes oriundos do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), o município estruturou uma residência com um modelo específico de assistência, alinhado ao processo histórico de desinstitucionalização em Barbacena e às diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), priorizando o cuidado em liberdade, o acolhimento e a inclusão social. Esse importante passo foi resultado da soma de esforços entre o Estado e o Município, que, juntos, concretizaram o processo de desinstitucionalização dos pacientes do CHPB.

Atualmente, Barbacena conta com Serviços de Residências Terapêuticas (SRT), que acolhem mais de 160 moradores. Inseridas na comunidade, essas residências representam muito mais do que moradia: são espaços de reconstrução de vínculos, autonomia e cidadania para pessoas que viveram longos períodos de internação e perderam o convívio familiar. O objetivo é garantir que cada assistido possa viver plenamente sua cidadania, realizando atividades simples e essenciais do cotidiano, convivendo em sociedade com dignidade e respeito.

Durante a solenidade, um cadeado foi colocado na porta da instituição para simbolizar o fechamento do espaço.

“É um momento de reparação histórica, de passar um cadeado definitivo nesta história de dor e também relembrar que este é um passado que jamais deve se repetir”, disse Bento, um dos pacientes remanescentes.

“Este é o ponto final de uma história construída por diversos personagens. São 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica e, até chegarmos aqui, foi muita luta. Vários aqui presentes estiveram conosco nesse caminho. A história de milhares de pessoas que foram jogadas e morreram nos pavilhões se encerra hoje, com a saída dos últimos 14 pacientes. É talvez o momento mais emocionante nos anos que estive à frente da Secretaria, um legado do qual me orgulho com vocês”, lembrou o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti.

Os profissionais que se dedicaram a esses pacientes nos últimos anos foram lembrados pela presidente da Fhemig, Renata Dias, e pelo atual diretor do Complexo Hospitalar de Barbacena, Claudinei Emídio Campos. “Mesmo com toda a emoção que estamos vivendo aqui, não posso deixar de agradecer aos nossos servidores e a todos que fizeram esse momento acontecer. Não tem como ouvir essas histórias e não imaginar o quanto o caminho foi difícil para todos”, disse a presidente. “Estamos ressignificando uma história rumo à liberdade, é um fato inesquecível”, completou Claudinei.

Hoje, Barbacena vive um momento histórico. O fechamento definitivo das portas do antigo Hospital Colônia simboliza um compromisso coletivo com a liberdade, com a inclusão e com a valorização da vida humana. Barbacena carrega uma história que jamais será esquecida, mas hoje mostramos ao mundo que é possível transformar dor em esperança, memória em aprendizado e cuidado em acolhimento.’ – Pontuou o Prefeito Carlos Du.

O encerramento definitivo das internações asilares de longa permanência representa um marco histórico não apenas para Barbacena, mas para todo o país. Mais do que fechar portas, este momento simboliza a abertura de novos caminhos para uma política de saúde mental baseada no cuidado, na inclusão e no respeito à vida humana.

📲 Siga o Instagram do Vertentes das Gerais.

​Barbacena escreve, hoje, uma nova página em sua história — uma página marcada pela memória, pela coragem de transformar, pela esperança de um futuro mais humano para todos e pela liberdade, que coloca um ponto final em um dos capítulos mais dolorosos da história da saúde mental no Brasil.

Histórias por trás dos números 

Mais do que uma mudança de endereço, o ato simboliza o fim de práticas baseadas no isolamento, na perda de vínculos e na exclusão social. Os moradores viveram, em média, 49 anos internados. A idade média atual é de 73 anos, e três deles chegaram à instituição antes de completar 15 anos. 

Muitos foram internados em uma época em que situações de abandono familiar, preconceito, sofrimento psíquico leve ou comportamentos considerados inadequados pela sociedade podiam levar uma pessoa ao confinamento. 

Parte dessas histórias permanece sem registro completo, mas os números conhecidos revelam a dimensão da tragédia. Entre 1942 e 2020, 40 mil pessoas passaram pela instituição, cerca de 24 mil morreram e, em determinado momento, o local chegou a reunir 3.500 pacientes simultaneamente. 

“Quando era estudante, visitei aqui e isso definiu minha carreira, com a missão de defender a luta antimanicomial. Que essas pessoas tenham um final de vida digno, é nosso dever defendê-los, reparar esse passado”, afirmou a presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Machado. 

Marco histórico 

Inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, voltado inicialmente ao tratamento de tuberculose, o espaço passou a ser conhecido, em 1911, como Hospital-Colônia, o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Ao longo do século XX, tornou-se símbolo de um modelo manicomial marcado por superlotação, abandono e violações de direitos. 

A história de Barbacena ganhou repercussão nacional a partir de registros jornalísticos, fotográficos e documentais que revelaram o que acontecia dentro dos muros da instituição. Hoje, parte dessa memória está preservada no Museu da Loucura, que registra um passado que não pode ser esquecido e jamais deve se repetir. 

Cuidado em liberdade 

Desde 2019, a SES-MG conduz o processo de desinstitucionalização de usuários no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB). Entre 2019 e 2025, 68 moradores do CHPB receberam alta para continuidade do cuidado em liberdade. Em 2022, foi registrado o maior número de altas do período, com 27 transferências para Serviços Residenciais Terapêuticos nos municípios de Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga. 

Ao longo desse período, o Estado investiu mais de R$ 718 milhões em ações de saúde mental em Minas Gerais, sendo R$ 100 milhões somente em 2025. Atualmente, Minas Gerais conta com 453 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), dos quais 65 são voltados exclusivamente ao atendimento de crianças e adolescentes. 

A assistência psiquiátrica no CHPB segue funcionando normalmente, dentro dos protocolos e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Com informações: Agência Minas e Prefeitura de Barbacena/fotos: Januário Basílio.

Leia também:

Últimos Destaques

Leia também:

Receba todas as notícias do Vertentes das Gerais no WhatsApp
Facebook
LinkedIn
WhatsApp
Instagram

Google News - Vertentes das Gerais

Siga e acompanhe as Principais Notícias de Barbacena, Lafaiete e Região

Leia também:

Fale com o Vertentes